segunda-feira, setembro 28, 2009

Alice no País Sem Maravilhas

Cansei de correr atrás do coelho branco. Ele está sempre atrasado e mesmo assim eu nunca o alcanço. E aquela porta? Por que ela é daquele tamanho? Se estou grande, não consigo passar por ela, se estou pequena, não posso abri-la. Esse negócio de "DRINK ME", "EAT ME" também já não aguento mais. Já bebi tanto que as coisas estão mudando de forma, aquele bebê acabou de virar um porquinho. Um porquinho ou um coquinho? Nem me lembro mais...
Não quero mais andar, vou sentar com a Centopéia, fumar narguile e enchê-la de perguntas. Talvez eu coma um cogumelo, talvez coma a Centopéia... Não sei se foi a garrafinha, o narguile, o cogumelo ou a centopéia, mas não me sinto bem, as coisas têm formas e cores estranhas. O gato com sorriso e o sorriso sem gato não me espantam mais.
O chá da tarde do dia inteiro às vezes me faz rir um pouco. Entre uma e outra mergulhada do ratinho no bule, o Chapeleiro faz alguma de suas charadas sem resposta. Ainda espero o dia em que, enquanto troco de lugar e sento no chá que a Lebre derramou, terei a resposta para uma das charadas. Vou deixá-los passando manteiga no relógio e vou procurar a Rainha Vermelha, quem sabe ela queira jogar ou mandar cortar a cabeça de alguém. Espero não pisar em tinta de novo.
Seria tão mais simples replantar as roseiras, ou mandar cortar a cabeça da Rainha, o Dois de Paus está tão vermelho quanto o Quatro de Ouro. Vou jogar paciência com a Rainha. Talvez ela prefira jogar truco, assim os Oitos, os Noves e os Dez podem continuar pintando as rosas brancas de vermelho.
Não fui feliz no meu truco com a Rainha. O pobre Três de Espadas teve sua cabeça cortada por valer mais que a Rainha Vermelha. Preciso de algo para beber, onde estão as garrafinhas "DRINK ME" agora? Ah, estava quase esquecendo, tenho que continuar a procurar o coelho...

quinta-feira, setembro 24, 2009

Deus e Diabo.

Já pensou por que Deus e o diabo têm essa ‘rixa’? Todos já pensaram e talvez a resposta mais comum seja a explicação bíblica desse eterno duelo entre o bem e o mal. Mas agora esqueça tudo, deixaremos o teísmo, o ateísmo, o agnosticismo e qualquer outra crença, dogma ou heresia de lado. Limpe sua mente e apenas imagine.
Partiremos do pressuposto que Deus é um homem e que o Diabo é uma mulher. Tudo aquilo que aprendemos ser o paraíso é uma casa, onde eles moram. Na verdade eles eram casados. Mas como todo casal, no começo do casamento, vivam felizes. Com o passar dos séculos, a vida celestial de casamento foi ficando monógama e ambos foram enjoando. Deus não agüentava mais as indolências de sua esposa, suas traições, suas brincadeiras e tudo o mais que nós conhecemos bem. Isso o atrapalhava no cumprimento de suas tarefas.
Depois de muitas discussões, muitos raios, tempestades, bolas de fogo e o que mais você quiser, eles decidiram se separar. Seria uma separação normal, cada um moraria em casas diferentes e os filhos, como na maioria dos casos de divórcio, ficariam com a mãe. Deus ficou no seu apartamento no último andar do universo. Diabo (ou deveríamos chamar de diaba?) ficou com uma casinha mais terna, na Terra, pros filhos poderem crescer perto dos animais e adquirir sabedoria aprendendo com seus erros. Seria uma separação normal se não estivéssemos falando de Deus e do diabo, é claro. Você não ficou se perguntando quem seriam os ‘filhos’?
Os filhos, obviamente, somos nós: os humanos, a humanidade. Somos bons e maus ao mesmo tempo. Moramos na Terra (inferno/ casa da nossa “mãe”), mas como ela não é uma boa mãe e nós somos filhos rebeldes, aspiramos poder voltar a morar com nosso pai (todos queremos ir pro Céu). A condição pra ir pra “casa do papai” é sermos bonzinhos, nos comportarmos, não brigarmos com nossos irmãozinhos.
E assim vivemos então, temendo a supremacia do nosso Pai e temendo a maldade de nossa mãe. Somos apenas seres comuns, criações incertas, sem expectativa. Somos algumas vezes caridosos, amáveis, bondosos, sensíveis; já em outras, manifestamos nossa inveja, agressividade, desejo de vingança, luxúria; e por ter essas características tão distintas coexistindo de maneira tão próxima, somos mortais, e não divindades.
No fundo, isso tudo é uma aposta pra ver quem vai ficar com mais filhos e ver quem tem mais autoridade. Enquanto nossos pais brigam, ficamos vivendo nesse mundo, que hora se parece com o paraíso, hora se parece com o inferno.

quarta-feira, setembro 16, 2009

Esperas

Esperar. A vida se resume a sucessivas "esperas". Esperamos o dia acabar para depois esperar a noite acabar. Esperamos incasavelmente, ou não tão incansavelmente assim...
Esse esperar podia ser simples, como é quando espera-se alguém. Chegamos, pedimos um café, nos sentamos e tentamos matar os minutos (ou horas) que nos separam do fim dessa espera.
Assim é a vida, uma grande espera naquela cafeteria onde acontece de tudo. Podemos simplesmente ficar parados, passivos aos acontecimentos, mas também podemos interagir, observar, questionar, pedir, escrever uma história, a nossa história. Assistimos outras esperas, nos questionamos até quando ficaremos ali.
Quando esperamos demais, cansamos. O "cansar" é a morte. Morremos e finalmente teremos nosso descanso. É assim que as esperas acabam: com o cansasso. Porque de repente olhamos no relógio e vemos que muito tempo se passou, nosso café esfriou, as linhas da nossa vida estão cheias e não temos mais o que fazer nessa cafeteria.